sexta-feira, 9 de novembro de 2018


DE ÁRVORE, RAIZ E PESSOAS

Passo um fragmento luminoso de tinta de caneta incandescente, nas letras de um verso qualquer que me encantou e saio acompanhada por ele.
Meu primeiro nome começa com A, de árvore, e termina com a de asa
No fim do último sobrenome, o s de sombra, que se projeta nas calçadas e paredes
Mas sinto que minha alma é mesmo raiz e vejo tudo o que se passa por mim, silenciosamente, mesmo desarrumada de luz, e quebro ao meio a indiferença desta manhã.
Vejo as pessoas que passam com seus pensamentos ruidosos e espumas nos passos.
Para algumas que passam perto e me olham com olhos laboriosos, cintilo minha voz com um bom dia, na cor azul dos cristais translúcidos da pulseira que uso.
Volto para casa, pois preciso de água para a minha sede de árvore, pois não conheço outra verdade
que me faça ser raiz.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

MÚSICA PARA A ALMA

Música é algo que me completa. Algumas lidam comigo muito melhor que certas pessoas, e me devolvem muito daquilo que o meu corpo e espírito necessitam.

Lembro uma cena que presenciei há dias, junto à Catedral de Goiânia, na minha habitual passagem diária, ora com Frida e Fred, ora indo à farmácia.

Um casal de jovens encontrava-se sentado na esquina, em frente a farmácia: mochilas pousadas no chão, estojo de um instrumento musical pousado ao lado.

Chamou-me a atenção pela forma curiosa que olhavam cada um que passava.

Continuei o meu caminho mas antes de chegar à farmácia um som fez-me parar.

Por instantes, detive-me a ouvir de que local viria o som, até que compreendi que vinha do jovem casal. Fiquei ali. Não conhecia a música, nem me lembro de a ter ouvido alguma vez, mas a sua harmonia, percorreu todas as células do meu corpo. 

Ele tocava e ela olhava-o, carinhosamente.

E eu encostada à parede da farmácia a ouvi-lo tocar...

Não sei quanto tempo passou de sinal fechado, mas a música chegava a comover. Fechei os olhos e deixei-me estar ali esquecida de tudo. Quando a música parou, olhei em volta: outros dois jovens desenhavam o jovem tocador. A jovem me sorriu timidamente. Retribui-lhe o sorriso e segui o meu caminho para o interior da farmácia.

Há momentos mágicos que nunca poderão ser transcritos completamente.

Naquele dia vivi um desses momentos.  

17 de Outubro 2018

Esta foi a data que descobri que ele havia partido para o outro plano. Descobri quando, ao deixar cair um livro no chão, uma carta e um telegrama se soltaram. Acredito que era ele em avisando que hoavia partido há três anos. 
Fiquei meio atordoada e escrevi o que li e deveria ter dito.
Compartilho aqui.

7/10
Era uma vez uma moça que no amor sempre fez escolhas erradas. Nunca acertou. Mas pelo menos umas duas vezes foi amada e desamou. Não cabe agora contar as razões porque desamou, até porque não existem razões. Amor desacontece. E hoje voltaram às mãos da moça, não tão mais moça assim, cartas de amor a ela dirigidas e uma poesia.Ele sempre a chamava de Ciganinha do Cerrado ou Flor do Cerrado. Uma das cartas era de despedida. " Eu ainda estranho a maneira como terminamos, ou melhor, como você terminou. Acho que nós vivemos uma história de amor que, se não foi perfeita, pelo menos foi muito bonita, em função do carinho, da lealdade, compreensão, enfim, por muitos motivos e que por isso , não deveria ter terminado como terminou, deixando mágoas...Sempre soube que um dia iria acabar, em função da minha ausência.Nenhum amor sobrevive dessa maneira, por mais paixão que possa haver... Quando em uma ocasião eu te disse que havia te perdido, você me pediu para tentar te achar de novo...eu havia descoberto o quanto te amava, talvez movido pela possibilidade de te perder. Eu sei que foi um erro ou até falta de sensibilidade, talvez burrice demorar tanto para perceber o quanto te amava, porém fui homem bastante para reconhecer o erro e confessar para você o meu amor. Infelizmente foi tarde demais... Só sei que quanto mais eu penso mais dói e menos eu entendo...Tenho também a certeza e a sensação que ainda iremos nos encontrar um dia, mesmo que não nesse plano espiritual, só para que eu possa te dizer mais uma vez, eu te amo!"
" O sol aquece e ilumina o Cerrado
A flor mais linda floresce na planície
Meiga e perfumada, solitária delicada,
Embeleza com sua pureza e vai vivendo o seu legado.
O sol alimenta mas castiga a linda flor.
Frágil, até aparenta pra quem não a conhece,
Imagina que aquela meiguice se enfraquece
E sob o sol do Cerrado vai sucumbir ao calor.
Mal sabe que a linda flor tem muito a dar do seu amor.
De tanto sofrimento, por vezes desanima.
Se imagina solitária, procura por companhia.
Quer dividir seu calor, sua tristeza, seu amor
Porém sua beleza supera qualquer tristeza,
Sua bondade desafia as agruras da Natureza.
Quem sabe um dia eu consiga almejar,
Que a frieza da minha distância
Se transforme em esperança
E ao lado da Flor do Cerrado
Meu coração eu possa plantar"
Hoje a moça, não tão mais moça, descobriu que ele partiu em 26/02/2015.Talvez um dia a tenha visitado em sonhos ou partilhado um uísque que ela bebia do modo que ele a ensinou. Talvez em outra vida a moça, não tão mais moça, aprenda a amar e manter o amor. Saudade, FRN. Arrependimento.

18/10
Eu deveria amarrar as mãos nas costas para não escrever as palavras erradas.
O perigo é esse: voltar a esquecer-me de você e numa noite qualquer, sonolenta, tropeçar na presença da sua ausência.
Não quero ser acusada do crime de silenciar sua memória.
Ainda que os seus dedos não estejam mais ao alcance dos meus, ainda que eu nunca tivesse dito que seus olhos verdes me iluminavam todos os minutos com esperança, ainda assim me abro, com terno desespero, como uma rua ladrilhada, não de pedrinhas de brilhantes, mas de poesias em sua memória.
Nessa rua todas as casas terão seu nome, para que ninguém que o conheça possa perdê-lo como eu o perdi.
Se pudesse iria buscá-lo no vento, porque sou nada e tudo é pouco para abraçar o impossível e esconder as minhas dores.
Com as palavras que me saltam da pele, guardo nossa história na gaveta do coração, porque posso dizer que tenho um coração na gaveta e também um buraco no coração.
Não falarei mais de você até o reencontro em outra esfera, em outra estrela.
Vá em paz. Ficarei em paz.
21/10
Havia prometido deixá-lo em em paz e seguir em paz, mas...
Hoje voltei a você, que foi chuva cedo demais precipitada.
É quase noite, e a luz que sobrou do dia é o que resta da devastação.
E a devastação é não estar, é não mais existir neste plano, com seu sorriso de puro fragmento de estrela e os seus olhos cor de esmeralda.
E a noite vai chegar, com pedaços de lua.
A noite crua e breve, como a vida.
01/11
Amanhã é Dia de Finados.
Ainda estou apaixonada, mesmo sabendo que está em outro plano. 
São as suas mãos que procuro no sangue quente que me percorre, mas ao tentar alcançá-las, fogem para local distante, para um sonho que não tem fim, para um tempo em que eu própria duvido de mim. 
Os seus olhos verdes, beijam-me os lábios e perdem-se no fio das horas revoltas. 
Dois barcos em alto mar, e a tempestade que nos invadiu, chuva densa e fria onde os nossos corpos se procuraram às cegas.
Fizemos amor e fomos labaredas.
Agora tão longe, sei que está perto e ondula, magnético, sobre os meus poros.
Perdi-me. Não quero a verdade.Não quero a mentira. Só o calor dos seus lábios.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Amanhã é Dia de Finados.
Ainda estou apaixonada, mesmo sabendo que está em outro plano. 
São as suas mãos que procuro no sangue quente que me percorre, mas ao tentar alcançá-las, fogem para local distante, para um sonho que não tem fim, para um tempo em que eu própria duvido de mim. 
Os seus olhos verdes, beijam-me os lábios e perdem-se no fio das horas revoltas. 
Dois barcos em alto mar, e a tempestade que nos invadiu, chuva densa e fria onde os nossos corpos se procuraram às cegas.
Fizemos amor e fomos labaredas.
Agora tão longe, sei que está perto e ondula, magnético, sobre os meus poros.
Perdi-me. Não quero a verdade.Não quero a mentira. Só o calor dos seus lábios.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

31 DE OUTUBRO

Hoje é Halloween nos Estados Unidos e aqui é o popular Dia das Bruxas. Alguém pode me indicar um mercado de vassouras voadoras? Estou cansada de escalar as calçadas de Goiânia. A prefeitura não decide se quer revitalizar fachadas, arrumar as calçadas, limpar as ruas, demolir obras inacabadas de particulares, terminar as próprias obras, enfim... nada é feito!Deveria começar pelas calçadas pois somos obrigados a andar olhando para o chão e ninguém vê a cidade. De repente a ideia é essa. Com o projeto escalada de calçadas não há como se perceber a feiura que nos cerca. Ah, sim, antes que esqueça e enverede mais para a política e seus governantes, o modelo que procuro é básico, sem frescuras, que alcance altura acima dos postes e pouse sem solavancos.

terça-feira, 30 de outubro de 2018



SENDO ALICE

Uma flor gigante me pergunta:

-O que procuras?

Não entendi bem a pergunta, mas também não respondi e ouvi de novo:

-O que procuras?

Como se a resposta pudesse trazer-me uma mão e um caminho, qualquer que ele fosse!

Uma borboleta voou da flor até mim , sorriu-me, assim como o cachorro do Roberto Carlos latiu sorrindo em “O Portão”, dizendo:

-Descontrai. Tudo se recompõe a seu tempo. Vai viver, sem culpas e sem medos. Erga a cabeça. Os que você considera como inimigos são os que a obrigam a rever posições, a olhar para dentro, a aprender.

Tudo muito bonito para uma sessão de psicanálise,mas não, muito obrigada!! Que tudo se recompõe, sim, eu sei. Cada um é livre de fazer desta vida o que quer, mas passem bem ao largo que aqui não há vagas disponíveis!

Ergue-se uma onda gigante que transporta uma barca. E da barca espreitam umas barbas brancas enormes e um sorriso macio e sedoso. O que diz é o silêncio, aquele que venho escutando há tantos anos, e que fez mais sentido do que todas as palavras que ouvi até hoje. Vou embarcar e aproveitar a viagem.

Profundamente Eu!

A maior viagem que podemos fazer na vida é de nós mesmos, ao longo do tempo em que estamos neste plano. Percorremos todas as tonalidades do nosso caráter, as escuras, as cinzentas, as claras e seus matizes. Conhecemos o pior e o melhor de nós, o que pensamos, sentimos, agimos, amamos e odiamos...
Quando nos deixamos ir, o nosso caminho revela-se com nitidez e os passos são decididos. Quando abandonamos o caminho, há sempre maneira de voltarmos a ele, mais tarde ou mais cedo, quer queiramos, quer não.
Todos os dias fazemos opções, escolhemos alternativas dos segundos que podem vir a preencher o nosso futuro, e desenhamos uma estrada que se vai perfilando no tempo e no espaço, que preenchemos como se um bordado fosse. Completamos espaços vazios, desmanchamos pontos de espaços já preenchidos e crescemos. diferentes do que éramos ontem, e preparamo-nos para o amanhã, conscientemente, inconscientemente...
Quando percebemos que estamos no nosso caminho, conscientes dele, o proveito que tiramos de tudo é mais intenso, mais colorido, faz mais sentido.
Há um belo poema de José Régio, Cãntico Negro, que termina assim:
“Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Atrevo-me a responder, dirigindo-me ao meu caminho: não sei por onde me leva, mas sei que quero ir por aí, pois é mais quente, mais tranquilo e faz-me sorrir...